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Pensar Social!

Michelle Garcia Winner

Social Thinking Article

Há cerca de dez, quinze anos atrás, aqueles que de nós trabalhavam na área do Espectro do Autismo, começaram a abraçar as competências sociais. Era uma novidade para nós o facto das crianças com Síndrome de Asperger não aprenderem através da observação dos outros, não compreenderem que pessoas diferentes têm reacções diferentes àquilo que as rodeia e verificar que uma série de competências que, aparentemente, aprendemos por osmose (como, por exemplo, perguntar a um colega se quer brincar ou pedir-lhe que partilhe o seu brinquedo, ou saber o que não se deve dizer a um professor) teriam que ser ensinadas de uma forma concreta, repetitiva e paciente a estas crianças.

 

Agora, um avanço rápido para os nossos dias. Demos um salto gigante na forma como compreendemos o ensino das competências sociais (i.e. ensinar acções sociais que sejam adequadas). Surgiram programas formais, acompanhados de livros e manuais com instruções detalhadas. Os pais "apanharam" a ideia e a maior parte dos professores compreendem a necessidade de incorporar os objectivos e metas das competências sociais no Plano de Apoio Individual (PAI) da criança.


Mas continua a faltar qualquer coisa. Existe uma peça deste puzzle que permanece no "nevoeiro", indefinida e, por vezes, quase incompreensível. Chama-se Pensamento Social e só agora começamos a ter a percepção do enorme papel que desempenha no processo de ensino-aprendizagem dentro da população com autismo.


O que é o pensamento social? Vamos tentar descrevê-lo de uma forma simples.


Alguma vez reparou o cuidado que põe na escolha das suas palavras quando vai a uma entrevista de trabalho ou a forma discreta como verifica o seu relógio quando está a falar com alguém? E se se encontrar numa situação social completamente nova? Qual a primeira coisa que faz? Observa as pessoas e depois mima as suas acções (ou não, dependendo do sucesso da pessoa que está a observar!). Isso é o pensamento social. É aquilo que fazemos antes de agir.


Aqueles que de nós seguem uma trajectória normal no percurso da aprendizagem social ("neuro-típicos" ou NTs), desenvolvem, intuitivamente, um "treinador social interno". Este treinador começa a trabalhar na infância e continua de forma contínua ao longo de toda a nossa vida. O sentido social que desenvolvemos ajuda-nos a negociar num mundo de interacções sociais instáveis e contextualmente variáveis.


Aprendemos como nos comportar na presença dos outros sem que, para isso, sejam necessárias instruções directas. Depois de alguns "tropeções" iniciais na infância, rapidamente aprendemos competências mais sofisticadas. Começamos a perceber que as interacções, quer seja com uma ou com várias pessoas, envolvem mais do que apenas os comportamentos observáveis. O seu sucesso depende de uma "dança" cuidadosa, feita de avanços e recuos, que inclui a avaliação das necessidades próprias e dos outros, da história (se existe alguma) entre os intervenientes, e dos pensamentos que têm a respeito um do outro durante a interacção. É complicado! E ainda por cima é um sistema em constante modificação! Uma criança aprende que quando o amigo com quem está a brincar se afasta ou começa a olhar ao seu redor, é sinal que está a ficar aborrecido e é melhor que consiga alterar algo para manter o interesse do seu companheiro. Como adultos, aprendemos a esperar até que o nosso chefe deixe de focar a sua atenção em nós, durante uma reunião, para podermos olhar para o relógio.


A nossa capacidade para considerar outras perspectivas, compreender que os nossos comportamentos afectam aquilo que as outras pessoas pensam a nosso respeito e que podemos mudar aquilo que pensam de nós (de forma boa ou má) não é nada que se aprenda num ensino dirigido. Ao contrário, é aprendido intuitivamente ao longo da nossa experiência social, através de uma mente pré-programada para funcionar desta forma, desde o nosso nascimento. Mesmo quando somos bebés a nossa aprendizagem social já está activa. Os bebés orientam-se para a mãe como fonte de informação: será esta pessoa amigável? Será que devo ter medo deste novo espaço? Somente depois do primeiro ano de vida, as crianças começam a apontar para qualquer coisa que tenha interesse e a olhar para os pais para partilhar o prazer da descoberta. Já lhes faz sentido que algo a que acham piada também possa ser divertido para os outros. Os círculos de comunicação e partilha de experiências vão se tornando cada vez mais largos. Aprendemos acerca dos pensamentos e sentimentos das outras pessoas e, à medida que crescemos, tornamo-nos incrivelmente sofisticados na nossa capacidade para determinar as motivações dos outros, as suas experiências e conhecimentos anteriores, os sistemas de crenças e personalidades.


O pensamento social é necessário de cada vez que partilhamos um espaço com alguém, mesmo que não haja lugar a interacção. É comum ajustarmos o nosso comportamento, baseados no que achamos que a outra pessoa está a pensar a nosso respeito. Consegue lembrar-se de alguma vez que tenha atravessado a rua para evitar cruzar-se com uma pessoa que lhe tenha parecido suspeita? E das vezes que evitou o contacto visual com alguém, fingindo não o ter visto, para escapar a uma possível interacção?


Existem outros momentos em que o pensamento social desempenha um papel importante. Utilizamo-lo quando lemos livros, para considerar as motivações dos personagens e compreender as suas acções em determinados contextos, quando nos expressamos por escrito, quando vemos televisão ou quando temos uma conversa que não tem o resultado que esperávamos. 


Aqueles que nascem com o seu cérebro social completamente funcional podem achar difícil compreender a falta desta capacidade intuitiva para aprendizagem social. É de tal forma uma segunda natureza para os indivíduos neuro-típicos, que imaginar qualquer outra maneira de pensar é talvez impensável! O nosso sistema de ensino baseia-se numa construção feita sobre o pensamento social. Mas e aqueles que não têm esta capacidade inata? Como é que os alcançamos?



O pensamento social e as competências sociais relacionadas podem ser ligeira ou significativamente deficitárias nas pessoas dentro do espectro do autismo, nas pessoas com perturbações da aprendizagem não-verbal e em muitas pessoas com défice de atenção e hiperactividade. Para elas, é um enorme desafio aprender a processar e responder a informação social, de uma forma rápida e eficaz. Por exemplo, indivíduos diagnosticados com "autismo clássico" podem não ter consciência de que pessoas diferentes têm pensamentos diferentes. Algumas crianças podem começar uma conversa a meio de uma frase, porque assumem que todos à sua volta partilham exactamente os mesmos pensamentos, no mesmo momento. Indivíduos com padrões de alto funcionamento, aqueles que são diagnosticados com Síndrome de Asperger, são muitas vezes um duplo dilema. A sua inteligência dotada e as capacidades na área da expressão verbal podem-nos levar a pensar que o seu pensamento social é igualmente adequado. No entanto, na maior parte das vezes, isto é falso. Ainda que possam estar conscientes de que as outras pessoas têm pensamentos diferentes dos seus, é-lhes difícil interpretá-los e responder de uma forma adequada, principalmente à velocidade a que se passa uma interacção social, que pode acontecer em breves segundos. Para estas pessoas é extremamente difícil conseguir que o mundo social faça sentido, e, normalmente, não podem contar com a ajuda dos professores e serviços de apoio que são desviados para aqueles que apresentam deficiências notórias.


Nestes artigos, iremos explorar o que significa pensar socialmente, bem como discutir formas práticas de ensinar a pessoas com Síndrome de Asperger estas competências da vida quotidiana. Iremos mostrar como esta informação social não é algo estático, mas sim parte de um sistema dinâmico e sinergético de pensamentos e acções, com regras variáveis na sua sofisticação, de acordo com a idade e contexto. O pensamento social não nos fornece um guião; ao invés disso abre-nos um caminho com muitas escolhas para ajudar os nossos alunos a interagir e a resolver problemas. Quando os pensamentos por trás das suas acções começarem a mudar, veremos que as suas acções sociais melhoram exponencialmente.


Ensinar o pensamento social e as competências sociais relacionadas não é uma abordagem linear, facilmente partida numa sequência de passos que podemos repetir vezes sem conta. É por isso que é um desafio. No entanto, é também isso que faz desta área uma aventura fascinante e criativa!

 

BIO

Michelle Garcia Winner, CCC-SLP é internacionalmente reconhecida como uma terapeuta inovadora, uma apresentadora enérgica e entusiasta de workshops e uma autora prolifera. Na sua prática privada, Michelle G Winner’s Center for Social Thinking, ela e a sua equipa consultam indivíduos, famílias e escolas acerca dos tópicos ligados ao pensamento social.

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